No Brasil assinava a veja e esta continua sendo a revista que gosto de ler, mas mais por tradição do que por seu conteúdo. Na minha opinião a revista está tão parcial que chega a irritar (fora o fato de que as reportagens estarem mais parecidas com o sensacionalismo comovente do fantástico do que com jornalismo de qualidade que eu costumava enxergar na revista).
Não sou ingênua e sei que qualquer jornalista escreve de acordo com suas convicções. É natural, na minha opinião. Mas acredito sim na imparcialidade da imprensa. Não acho que uma revista deva me dizer em qual partido ou candidato votar. Ainda que eu não considere tão prejudicial ler nas entrelinhas (mas só nas entrelinhas, que fique claro), a simpatia política de um veículo de imprensa, acredito também que a simpatia não pode superar o bom senso e que uma, ao menos, tentativa de imparcialidade deve sempre ser a meta.
Dito isto, fiquei contentíssima por receber mais uma revista e jornais no início da semana e claro que com um título como este "Para seu filho dormir e não chorar com cólicas", o artigo do Gustavo Ioschpe não me passou desapercebido.
Não conheço o autor, nem o que o qualificaria a escrever sobre o desenvolvimento infantil, mas como disse a Anne, ao virarmos mães, todas as opções tomadas em relação aos cuidados com os filhos são passíveis de serem colocadas em questionamento, por todos que convivem conosco.
Ou seja, também o Gustavo se sentiu no direito de escrever sobre a "falta de coragem" que leva os "pobres pais" a não deixarem os filhos chorarem por alguns dias e que acabam pondo a perder o "treinamento" para que os filhos durmam a noite toda. Gustavo também diz que não devemos "capitular" ante o choro e que devemos estar atentos para que a criança não seja socorrida se chorar um pouco mais, pois aí o choro não termina nunca.
Nossa, fico triste só de imaginar que muitos pais realmente recorrem a este método e deixam seus filhos chorando por minutos (horas?) a fio. Minha primeira filha foi uma grande exceção e realmente aprendeu a dormir sozinha a noite toda com alguns poucos meses de idade. Já a segunda não. Helena acorda várias vezes e me pego pensando como será bom quando eu puder dormir uma noite inteira novamente. Só que se para isso eu tiver que deixar a minha filha chorar inconsolavelmente (pois faz parte do "método" do Gustavo, inspirado no americano Richard Ferber não pegar a criança no colo, não tocá-la e, preferencialmente, nem falar com a criança para que ela aprenda a se virar sozinha), prefiro passar muitas outras noites em claro.
Engraçado que o Gustavo cita alguns papers que embaseariam a hipótese de que a insônia infantil traria "significativos problemas para o resto da vida", mas ao ler o primeiro deles (confesso que depois fiquei até com preguiça de ler os outros 3), este argumento, ao meu ver, já cai por terra. Vejamos, o paper sugere que crianças que dormem menos têm mais probabilidade de ter dor de cabeça.
A ausência de sono, concordo, dá dor de cabeça até em mim. Mas, o segundo fator mais importante, apontado como causador da dor de cabeça, ainda segundo o paper, é o estresse emocional. Ora, pergunto eu: e qual é uma das consequências mais diretas do método de deixar a criança chorando até pegar no sono sozinha? Não é justamente o estresse?
Fora o fato de que em nenhum momento se insinua no paper que as crianças durmam menos por terem sido socorridas pelos pais ao chorarem, quando bebês.
Curiosamente, hoje minha irmã compartilhou um texto no FB falando sobre os perigos do hábito de se deixar chorar e gostaria de listar aqui, bem resumidamente, algumas das consequências deste hábito (tradução pessoal):
- morte de neurônios - quando o bebê está muito estressado o hormônio cortisol é liberado e este é um assassino de neurônios
- reação ao estresse deturpada - o corpo reage de forma extrema ao estresse causando mau funcionamento cerebral, do trato digestivo, etc.
- auto-regulação é abalada - o bebê não aprende a se acalmar ou a ter auto-controle. O que ele aprende é que não pode defender ou confiar nas pessoas.
- auto-confiança é abalada - o bebê não tem uma base sólida com a qual sabe que pode contar.
O tempo com um recém nascido parece infinitamente longo, quando pensamos nas noites mal dormidas, mas tão curto quando consideramos a vida inteira que um indivíduo tem pela frente. Será que compensa mesmo arriscar e ir contra todo o bom senso humano que nos faz acudir alguém que está pedindo ajuda? Ainda mais quando este alguém é seu filho? Que depende totalmente de você?
Posso estar cansada, mas nada como sentir a cabeça da minha filha apoiada em meus braços enquanto a embalo para voltar a dormir e saber que ela se sente protegida e acolhida e segura do meu amor...

