terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Alguém leu a veja da semana passada?

Aqui em Hamburgo não tem nenhum periódico brasileiro para comprar. Não tem jornal e não tem revista. Claro que temos a internet, mas confesso que adoro folhear uma revista, ou ouvir o barulho e sentir nas minhas mãos aquele papel sujinho de jornal. Sendo assim, sempre que algum conhecido meu vai para o Brasil, e me pergunta se quero alguma coisa de lá, logo responda: por favor jornal e revista!

No Brasil assinava a veja e esta continua sendo a revista que gosto de ler, mas mais por tradição do que por seu conteúdo. Na minha opinião a revista está tão parcial que chega a irritar (fora o fato de que as reportagens estarem mais parecidas com o sensacionalismo comovente do fantástico do que com jornalismo de qualidade que eu costumava enxergar na revista).

Não sou ingênua e sei que qualquer jornalista escreve de acordo com suas convicções. É natural, na minha opinião. Mas acredito sim na imparcialidade da imprensa. Não acho que uma revista deva me dizer em qual partido ou candidato votar. Ainda que eu não considere tão prejudicial ler nas entrelinhas (mas só nas entrelinhas, que fique claro), a simpatia política de um veículo de imprensa, acredito também que a simpatia não pode superar o bom senso e que uma, ao menos, tentativa de imparcialidade deve sempre ser a meta.


Dito isto, fiquei contentíssima por receber mais uma revista e jornais no início da semana e claro que com um título como este "Para seu filho dormir e não chorar com cólicas", o artigo do Gustavo Ioschpe não me passou desapercebido.

Não conheço o autor, nem o que o qualificaria a escrever sobre o desenvolvimento infantil, mas como disse a Anne, ao virarmos mães, todas as opções tomadas em relação aos cuidados com os filhos são passíveis de serem colocadas em questionamento, por todos que convivem conosco.
Ou seja, também o Gustavo se sentiu no direito de escrever sobre a "falta de coragem" que leva os "pobres pais" a não deixarem os filhos chorarem por alguns dias e que acabam pondo a perder o "treinamento" para que os filhos durmam a noite toda. Gustavo também diz que não devemos "capitular" ante o choro e que devemos estar atentos para que a criança não seja socorrida se chorar um pouco mais, pois aí o choro não termina nunca.

Nossa, fico triste só de imaginar que muitos pais realmente recorrem a este método e deixam seus filhos chorando por minutos (horas?) a fio. Minha primeira filha foi uma grande exceção e realmente aprendeu a dormir sozinha a noite toda com alguns poucos meses de idade. Já a segunda não. Helena acorda várias vezes e me pego pensando como será bom quando eu puder dormir uma noite inteira novamente. Só que se para isso eu tiver que deixar a minha filha chorar inconsolavelmente (pois faz parte do "método" do Gustavo, inspirado no americano Richard Ferber não pegar a criança no colo, não tocá-la e, preferencialmente, nem falar com a criança para que ela aprenda a se virar sozinha), prefiro passar muitas outras noites em claro.

Engraçado que o Gustavo cita alguns papers que embaseariam a hipótese de que a insônia infantil traria "significativos problemas para o resto da vida", mas ao ler o primeiro deles (confesso que depois fiquei até com preguiça de ler os outros 3), este argumento, ao meu ver, já cai por terra. Vejamos, o paper sugere que crianças que dormem menos têm mais probabilidade de ter dor de cabeça.
A ausência de sono, concordo, dá dor de cabeça até em mim. Mas, o segundo fator mais importante, apontado como causador da dor de cabeça, ainda segundo o paper, é o estresse emocional. Ora, pergunto eu: e qual é uma das consequências mais diretas do método de deixar a criança chorando até pegar no sono sozinha? Não é justamente o estresse?
Fora o fato de que em nenhum momento se insinua no paper que as crianças durmam menos por terem sido socorridas pelos pais ao chorarem, quando bebês.

Curiosamente, hoje minha irmã compartilhou um texto no FB falando sobre os perigos do hábito de se deixar chorar e gostaria de listar aqui, bem resumidamente, algumas das consequências deste hábito (tradução pessoal):
  • morte de neurônios - quando o bebê está muito estressado o hormônio cortisol é liberado e este é um assassino de neurônios
  • reação ao estresse deturpada - o corpo reage de forma extrema ao estresse causando mau funcionamento cerebral, do trato digestivo, etc.
  • auto-regulação é abalada - o bebê não aprende a se acalmar ou a ter auto-controle. O que ele aprende é que não pode defender ou confiar nas pessoas.
  • auto-confiança é abalada - o bebê não tem uma base sólida com a qual sabe que pode contar.
E isto para não falar da consequência mais direta, que todo pai ou mãe sente ao deixar seu filho chorar propositalmente: culpa.
O tempo com um recém nascido parece infinitamente longo, quando pensamos nas noites mal dormidas, mas tão curto quando consideramos a vida inteira que um indivíduo tem pela frente. Será que compensa mesmo arriscar e ir contra todo o bom senso humano que nos faz acudir alguém que está pedindo ajuda? Ainda mais quando este alguém é seu filho? Que depende totalmente de você?

Posso estar cansada, mas nada como sentir a cabeça da minha filha apoiada em meus braços enquanto a embalo para voltar a dormir e saber que ela se sente protegida e acolhida e segura do meu amor...

14 comentários:

Chris Ferreira disse...

Oi Karen,
você sabe que eu estava pensando isso semana passada. Eu adorava a Veja, mas agora ela nem coloca mais a posição contraria a dela. Estou achando isso um absurdo!
Adorei seu comentario lá no blog!
Beijos
Chris
http://inventandocomamamae.blogspot.com/

Ana Campos disse...

karen, concordo com você, não tem nada mais confortável para o bebê do que o colinho da mamãe.
Sofia teve cólicas até quase o 5º mês, nunca deixei minha pequena chorando sem pegá-la no colo...

bjs

Camilla Brandel disse...

Eu não li a Veja mas rolou muito comentários negativos sobre essa reportagem nas listas maternas que participo.
Engraçado que algumas mães que praticam o método de Ferber afirmam que foi mesmo ótimo, que agora o bebê dorme melhor, que foi bom pra ele também e tal. Mas... se você perguntar quando ela resolveu adotar o método pela 1a.vez, foi sempre numa época que estava muito cansada, que não aguentava mais, etc. Ou seja, ninguém resolve aplicar essa técnica pensando no bebê. O coitadinho é a última prioridade nessa história.
Conheci algumas que disseram que, numa hora de desespero, tentaram deixar chorando por alguns minutos, mas depois se arrependeram. Aí pergunto, por que é que, na hora do desespero, não levam o bebê pras suas camas, coisa que normalmente resolve o problema? Pois é, não levam por conta de gente tonta como esse autor aí!! Não levam porque a mãe, a tia, a vizinha, a filha da cunhada da prima ou coisa parecida disseram que não pode, que o bebê fica mal acostumado, que tira a privacidade e blábláblá.

Uma reportagem como essa só reforça essas ideias equivocadas. Nota zero pro autor e nota zero pra Veja.

Mari Hart disse...

Oi querida! Vim te conhecer! =)))

Realmente, hj a Veja não é mais parâmetro pra nada como já foi um dia, arrisco dizer até que sua credibilidade vem sendo abalada e não é de hj! Qto ao tema da reportagem, é lamentável saber que ainda existam profissionais (?) que apoiam o método 'deixar chorar'. P/ trienar o quê?! Robôs?! Afff... Li livros como o Nana nenê tão polêmico, e nem eles são radicais assim! Tô passada!

Bjo grande! =)))

Ilana disse...

Oi Karen!
Preciso falar que não li esse artigo da Veja, mas já não gostei. Entendo mães que deixam seus bebês chorarem, porque já fui uma delas, mas só quando meu filho tinha 1 ano e já tinha comprovado que ele era capaz de aguentar um pouquinho (e pq eu estava exausta tb, claro!).
Adorei seu comentário carinhoso, viu? Venha sempre! Ah, e o Rapha tem 2 anos e 4 meses. ;)
Beijos!

Kathe disse...

Eu lí, e na mesma hora me indignei, me parece meio cruel fazer isso com um bebezinho, ainda mais nós que somos mães, que temos por instinto proteger de tudo e de todos nossos filhos.
deve ser por isso que tem tanto adulto mal resolvido na vida, pura e simples falta de afeto e atenção.
Por isso filha,ouça seu coração como sempre tem feito.
bjs.

Ingrid disse...

Tenho passado por isso e acho que vai durar um bom tempo ainda. Tem muita gente que dá pitaco dizendo "deixa ele chorar, depois de uma noite inteira sozinho chorando ele aprende a dormir sozinho" ou ainda dizem que é dengo. Se é ou nao, eu nao sei, mas nao consigo deixa-lo chorando quando o simples fato de pega-lo no colo o acalma e ele dorme quase que imediatamente. Essa fase um dia vai passar, quando ele puder entender vai aprender a dormir sozinho mas agora ainda é muito cedo.
bjos

Celi disse...

Karen que maravilha a parte de receber revistas e jornais trazidos do Brasil. Adoro também! Sempre peço como pequena encomenda...rs
Lamentável esse artigo, hein! Impressionante mas a revista Veja em si deixa a gente duvidar de muitas informações. Na verdade, nada melhor do que um pré conhecimento anterior. Difícil de confiar e acreditar!
Também acho complicado demais deixar o filho chorando para aprender. Acho que tudo precisa ter discernimento e um equilíbrio por parte dos pais. Acho que dormir sozinho não é da noite para o dia. Um aprendizado! Assim como escreveu... tem algo mais gostoso do que ver o filho embalado, dormindo gostoso em nossos braços?
Um beijo.

·.¸¸.·**Vivi**·.¸¸.· disse...

Oi Karen! Seja super bem vinda no Autoestima & Emagrecimento!! Já estou por aqui também! Respondi la sobre os cardapios, da uma olhada!
Que legal, nao conheco nada do norte da Alemanha! Moro em Karlsruhe. Ha quantos anos esta aqui??
Tb sinto falta de revistas.......
Beijinhos!

Simone Scalabrini disse...

Pois é! A Sofia vai fazer 5 anos e até hoje durmo com ela se ela me pede. Qual é o problema em dar conforto e segurança se é o que precisam para ter uma boa noite ou saber se quando precisarem nos terão do lado??

Minha opinião é muito parecida com a sua, Karen.

Bjs!!!!

Maria Claudia disse...

Oi Karen, uma dica:
Na estacao Central, tem uma livraria que vende o jornal brasileiro A folha de Sao Paulo e outros mais, é o jornal do dia e eles imprimem na hora... sempre comprávamos lá nos domingos de manha e agora compramos em Frankfurt tb em uma livraria na Estacao Central...agora vc nao precisa mais esperar os seus amigos trazerem do Brasil, pode comprar todos os dias ou todo domingo de manha e ler as notícias fresquinhas ... fresquinhas. Beijo

Regina disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Regina disse...

Vichi, fiz tudo errado segundo esse método, e não me arrependo nem um pouco. o Felipe vem para a minha cama até hoje (ele já tem sete anos) e só de ver a carinha triste dele quando eu falo não e depois o sorrisão quando eu falo sim, não há teoria que me convença do contrário. Carinho, atenção, amor, nunca é demais!!! Além do mais eu adooooooooro dormir sentindo o cheirinho do meu filhote, tenho que aproveitar, ele está crescendo e daqui a pouco não vai mais querer tanto o meu colinho. Bjos Taia!!!
30 de dezembro de 2011 07:40

Ingrid Teixeira disse...

Amiga...nenhuma revista é perfeita mas a Veja ainda dá um banho de profundidade nos assuntos realmente releventes do nosso país. Muitos jornalistas se arriscam ao revelar escândalos como o da Bancoop, dos mensaleiros, etc... Qto ao Gustavo I. ele é muito bom no que escreve, cada artigo sobre a educação aquí no Brasil de tirar o chapéu! Mas essa de deixar o filhote se acabando de chorar, nem pensar...
Eu também discordo e acho que tb vale para as noites em que eles têm pesadelos e vêm nos procurar. Eu não durmo com meu filho mas qdo ele era bebê (hj te 5 anos)ele me dava mais trabalho se dormissa sozinho...de vez em qdo ele acordava e abria a boca...como eu sempre trabalhei de plantão e PRECISAVA dormir...não titubeava...trazia ele pra dormir comigo que era o mais cômodo. Eu não podia me dar ao luxo de ficar indo toda hora no qto dele e tb não iria dormir com um berreiro ao lado, fora a culpa, ele não me tinha disponível durante os dias, eu sempre trabalhei...ahhhh....me poupe....meu único momento de chamego era de noite...rsrs...
Hj ele ainda adora dormir no qto da mamãe mas combinamos que só aos finais de semana. Dorme pontualmente às 8 da noite e acorda com as galinhas...
Estou feliz...
Meu conselho: sigam os vossos corações mas nunca temam dizer NÃO.
Um beijo!
Ingrid