Mostrando postagens com marcador Blogagem coletiva. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Blogagem coletiva. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Brinco? Nem pensar! ou Educando filhos brasileiros na Alemanha

É engraçado que a primeira diferença que senti na hora de educar as nossas filhas bi-nacionais foi quando soubemos que uma menininha estava a caminho. Já comecei a imaginar todo um cenário cor de rosa, muito babado e frufru (tá, confesso, nem tanto, já que não sou uma pessoa muito cor-de-rosa, nem muito menos frufru) e já fui pensando em pedir para a vovó mandar um par de brincos para a netinha, como um que eu tinha quando era pequena e a-ma-va: um brinquinho de ouro com rubi (era mesmo mãe?), em forma de cerejinhas. Fui contar todo o meu cenário bucólico para o maridão e ouço um:

- Nem pensar! Não podemos colocar BURACOS na orelha da nossa filha!
- Como assim BURACOS? São apenas furos nas orelhas, como os meus.
- São BURACOS sim, e minha filha não vai ter as orelhas furadas só porque você quer. Já ouviu falar de livre arbítrio?
- Mas ela será uma menina! E meninas têm as orelhas furadas! Eu tenho, você acha que ela não vai querer ter?
- Mas nem minha mãe, nem minha irmã, têm as orelhas furadas. E você vai ter que me prometer que não vai fazer nada escondido de mim.

E eu prometi. 
E a Sophia ficou sem brincos nas orelhas. Tudo isso porque aqui na Alemanha, principalmente nas famílias mais tradicionais, ricas ou esnobes, sei lá, é considerado brega furar as orelhas. O que é muito estranho, já que aqui todo mundo tem as orelhas furadas, muitos homens também usam brincos, mas meninas têm que ficar com as orelhas intactas até mais ou menos a entrada para a escola. Ou melhor ainda até estarem na quinta série. Ou, glória das glórias, para sempre.

Com isso, passei muito tempo (já que Sophia era BEM carequinha) respondendo que não, meu bebê não é um menino. Não tá vendo que ela está de vestido e ainda por cima cor-de-rosa? Pois aqui também não é considerado de bom tom vestir muito cor-de-rosa nas meninas. Claro que eu muitas vezes usava e pronto. Afinal, porque os meninos podem usar tudo azul e as meninas não podem usar cor-de-rosa? É a tal emancipação feminina às avessas, eu diria. Na ânsia de não querer rotular e delegar papéis pré-determinados às meninas, os alemães acabam colocando tabus em assuntos de importância (na minha opinião) secundária, como brincos e cores. Espera-se de verdade que meninas filhas de pais com curso superior não usem muito rosa, nem tenham brincos. Quando encontrava com alemãs que viam minhas filhas vestidas de forma mais delicada, eu escutava muitas vezes uma justificativa da parte delas, um comentário do tipo: "ah, de vez em quando elas também podem usar rosa, né?". Como se fosse necessário que eu me justificasse perante as minhas escolhas femininas.

Outro ponto, bem mais importante, que me faz pensar é a fomentação da independência da criança. Aqui crianças devem ser independentes o mais rápido possível. Isso significa, por exemplo, que muitos pais esperam que as crianças durmam a noite toda, desde sempre. E acreditam piamente que estarão "estragando" a criança se "cederem" ao seu choro e lhe forem socorrer ao chorar. Então tem toda uma parafernália de livros, cursos e fóruns de discussão em que se "ensina" a criança a dormir a noite toda. Como? Deixando-as chorar, claro. 
Pegar muito no colo também é para os fracos. Normalmente, se uma criança cai, dá-se uma rápida olhadela para ver se não tem nenhum ferimento aparente e já se diz a criança que ela deve se levantar. Não tem muito consolo, nem muito mimo.
E, para mim, o cúmulo do fomento da independência é esperar que a criança saia de casa aos 18 anos. Sim, com 18 espera-se que o filho vá estudar em algum lugar e que depois comece a trabalhar e os pais (claro que inicialmente ajudando financeiramente) dão meio que por terminadas as suas obrigações paternais.

Mas, como tudo na vida tem seus dois lados, esta independência também é interessante! As crianças aqui aprendem bem mais cedo a ajudar na rotina da casa. Sophia com seus quatro aninhos, já arruma seus brinquedos antes de jantar. Ajuda a por a mesa e leva sempre os seus pratos, talheres e copos pra cozinha e já os põe direto na máquina de lavar louça. Ela já sabe há algum tempo usar garfo e faca (engraçado que todo mundo no Brasil se espantava que ela aos 3 anos já usasse garfo! Até a Helena, de um aninho, já está começando a aprender a espetar...), se veste sozinha, vai à piscina com a turminha da escolinha e até se penteia e seca os cabelos com o secador de cabelos sozinha, sob a supervisão dos professores, claro. E muito disso ela aprendeu na escolinha, eu confesso.

Outro ponto muito bom aqui na Alemanha é a alimentação. As crianças têm realmente bons hábitos alimentares. Elas comem muita fruta, muitos legumes, peixe, etc. Claro que depende dos pais incentivar e dar o exemplo, né? Mas até os 3 anos eu diria que a alimentação é excelente. É comum você visitar um alemão e ter uma mesa para as crianças com maçã e pera cortadinha, pepinos, pimentão e cenourinha para que eles mesmos peguem e comam. Sempre brinco dizendo que pepino é a pipoca da Sophia, pois nas raras vezes que ela come assistindo televisão é isso que ela come. 
E adora! Tenho muito orgulho que minha filha coma tão bem e de tudo. Ela não toma refrigerante, não come salgadinhos, ou maionese, ou outros molhos, e larga qualquer coisa por um bom pedaço de melão. E o mérito é da cultura alemã, pois não passa pela cabeça de um alemão oferecer coca-cola para uma criança de 2 anos. Também não há muita tolerância para as "frescuras" individuais. Eu acho que no Brasil é muito, muito comum que as pessoas não comam de tudo. Do tipo: Fulano não gosta de peixe, Cicrano não gosta de azeitona, Beltrano não gosta de cebola (eu, por exemplo!), mas isso por aqui é bem mais raro. Claro que todo mundo tem suas preferências, mas o "não gostar" não significa não comer em hipótese alguma. E isso se aprende cedo por aqui. Pois, como diz o ditado, é de pequenino que se torce o pepino.

E é assim que vou vivendo. Equilibrando o que acho de melhor de cada cultura e integrando à nossa forma de educar. Por sorte meu marido e eu concordamos na maioria das coisas ligadas à educação das nossas filhas e o que não concordamos eu acabo convencendo.

Em tempo, Sophia furou as orelhas com 3 anos e a Helena com menos de um ano ;-)



Hoje as Mamães Internacionais estão fazendo uma blogagem coletiva sobre as diferenças culturais na hora de educar os filhos. Quem quiser ler mais, clica aqui!

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Infância livre de consumismo



Há alguns dias vi no blog Super Duper um convite para um debate que estava/está acontecendo na rede no momento sobre o tema Infância livre de consumismo. Este é um tema que me apaixona e que me consome, pois como mãe temos que lidar diariamente com o consumo dos nossos filhos e tentar acertar na dose entre o permitir e o educar.
Pois são muitas as opções de consumo para os pequenos. Arrisco dizer que na geração deles a oferta para o público infantil no mínimo duplicou. Como os pais estão tendo filhos cada vez mais tarde (e com isso as carreiras já estão mais estabelecidas, o poder aquisitivo é maior, os avós têm menos netos para mimar) e cada vez menos filhos, é natural que compremos mais.
Quando eu era pequena, a televisão era uma companheira constante. E na minha casa sempre foi um hábito ligar a televisão (ou as televisões) ao acordar e só desligá-la quando dormiamos. Não acho, no entanto, que isto tenha interferido tanto na minha educação. Meus pais e meus avós deram (e dão) exemplo de que há muito mais a se fazer do que ficar parada na frente da TV. Então, como morávamos numa chácara tinhamos muito espaço para correr, nos esconder, trepar em árvores, pegar fruta no pé, colher cenouras da horta, andar de bicicleta, brigar com os meninos da rua, nadar na piscina, brincar de ABBA (Há! Alguém mais fez isso?) e ler. Aliás, um dos meus apelidos na época era "leledora". Também gostávamos de assistir à televisão, claro. Balão Mágico, Xou da Xuxa, Fofão e tudo mais que a década de 80 nos trouxe sempre esteve presente nas nossas vidas.
Lógico que também éramos influenciados pelas propagandas, mas meus pais sempre trataram a questão com naturalidade: se  cabia no orçamento compravam, se não cabia não compravam. Simples assim. Não acho que eu tenha sofrido por não ter recebido alguma coisa. Muito pelo contrário, lembro do prazer que era receber algo que há tempos eu cobiçava. Da mesma maneira que na primeira infância sonhava com brinquedos, na adolescência sonhava com as "roupas de marca". Queria ter calça da Zoomp ou Fórum, tênis Nike, mochila da Company e por aí afora. Mas também aqui a divisa era: presente se ganha em ocasiões especiais e pronto.
Só que agora o poder aquisitivo e a percepção em relação ao consumo são diferentes em relação à minha infância. Na minha época meus pais não eram confrontados com decisões do tipo: será que é muito cedo para comprar um IPad para meu filho? A partir de que idade o celular é necessário? Quantas horas de TV por dia meu filho pode assistir?

Estas são perguntas da nossa geração e cabe a nós, pais dos anos 10, encontrar as respostas cabíveis e aplicáveis a cada família. Na minha família e no meu contexto de vida, o consumismo infantil não é visto com bons olhos. Temos uma filha de 4 anos e uma de 13 meses e procuramos evitar que as duas sejam muito expostas à propaganda. E o motivo pra isso é que tentamos a todo custo proteger a sua meninice. Não queremos que as nossas filhas percam um só segundo desta fase que julgamos ser tão importante para as suas vidas. E não queremos criar filhas mimadas e consumistas que não consigam encontrar prazer em coisas como um dia lindo de sol, ou a sensação boa das ondas do mar batendo nas nossas pernas. Tampouco queremos que elas recebam um presente atrás do outro, achando que é normal e que as coisas não têm o seu valor e que não precisamos trabalhar para ganhar alguma coisa. Já contei aqui como fiquei decepcionada ao ver que a Sophia não tinha desejos para o Natal. E não quero que isso se repita no Natal deste ano.
Não queremos excesso de presentes, tanto é que este ano pedi a minha mãe (que encheu as netinhas de mimos enquanto estivemos em sua casa, no início do ano, mas foi em UM momento do ano) não enviasse ovos de Páscoa para nós. Afinal queremos que as nossas filhas entendam que o ser é mais importante que o ter. Queremos que elas respeitem as pessoas pelo que elas são, não por aquilo que elas têm. 
E, olhem só, esses dias, perguntando pra Sophia do que ela mais sentia falta no Brasil, ela me respondeu: de brincar com a Vovó. Fiquei tão feliz!! Pois é isso mesmo o que eu quero pra ela. Mas se ela estiver o tempo todo com a TV ligada, onde é que sobra tempo para brincar com a Vovó?

Por isso que aqui em casa, TV é limitada sim. Sophia assiste no máximo 40 minutos à TV por dia. E só em um momento do dia: enquanto estou fazendo o jantar pras meninas. Tenho a sorte de morar em um país (Alemanha) em que temos a escolha de um canal em que não existem propagandas. Então, Sophia pode escolher: ou assiste aos desenhos neste canal, ou DVDs (que são quase todos em português, para que ela aprimore sempre o idioma). Claro que algumas pessoas não entendem o porquê de tanta restrição, mas, como toda mãe, também quero o melhor pras minhas filhas e acredito que isto seja o melhor para elas. Lógico que assim tenho muito mais "trabalho". As horas não passadas na frente da televisão são preenchidas com inúmeras outras atividades: quando está tempo bom vamos brincar no parquinho, passear ou andar de bicicleta. Quando o tempo está ruim visitamos amiguinhos, pintamos, escrevemos, lemos, montamos legos, brincamos de mamãe/papai (ou de Rapunzel, Branca de Neve, Chapéuzinho Vermelho, de piratas, dinossauros ou qualquer outra coisa que a Sophia escolher), fazemos bolo, pipoca, pizza, suco, sorvete ou qualquer outra coisa na cozinha, brincamos com massinha de modelar, de jogo da memória, montamos quebra-cabeça, vamos à piscina, ao teatro ou à biblioteca, enfim, vivemos!

E sem a influência direta da propaganda não somos bombardeados com pedidos do tipo: quero o iogurte X ou a bolacha Y. Para a Sophia iogurte é iogurte e bolacha é bolacha. Aliás, alimentação também é um tema que me apaixona, já que também não permito que a Sophia se influencie pela "propaganda dos amigos". Para mim o esquema de "se Fulana com dois anos já toma refrigerante, porque a Sophia não pode nem experimentar?" não funciona e pronto. Novamente, quero o melhor pras minhas filhas e, assim, quero que minhas filhas aprendam o sabor dos alimentos, da forma mais natural possível. E não em forma de aditivos, corantes e aromatizantes. E olhem só, minhas filhas comem de tudo. Sabe aquela imagem de uma criança tirando tudo que é verde do prato? Isso não existe aqui em casa. Sophia (e Helena também) comem ervilhas, brócolis, espinafre, couve, salsinha, cebolinha e com prazer.

Ou seja, na minha opinião, as crianças devem sim ter o direito a uma infância o mais livre possível de propagandas. Afinal, nós pais já somos bombardeados diariamente com as propagandas e também os maiores culpados. São inúmeras as ofertas para um recém nascido, já repararam? E nós, na nossa ânsia de proporcionar o melhor para os nossos filhos compramos, compramos, compramos, como se não houvesse amanhã. Só que nós pais temos (temos?) um senso crítico capaz de nos guiar a fazer as decisões, mas nossos filhos ainda não. Cabe a nós pais prepararmos os nossos filhos para que eles também sejam capazes de lidar com as frustrações, com o fato de que não poderemos ter tudo sempre. E de que não é razoável comprarmos um brinquedo (ou qualquer outra coisa, isso vale principalmente para os pais!), em mil prestações quando há tantas coisas mais importantes num orçamento familiar.

Na minha opinião, forçar a criança a ter desejos (que é o que a propaganda faz), é fazer com que as crianças deixem de brincar umas com as outras para brincarem com coisas apenas. É cortar a relação interpessoal em prol da individualidade. É cortar as lembranças gostosas que levamos da infância e que carregaremos conosco a nossa vida toda, em troca de alguns minutos de felicidade no momento em que recebem mais um brinquedo. É incentivar a criança a querer ser grande mais rápido. É um estímulo desnecessário da vaidade, da ganância e da possessividade. 

Então sou a favor não tanto da restrição da propaganda, mas muito mais da restrição em si. De que cada pai e cada mãe seja capaz de restringir o consumo geral da criança (e deles próprios!), de restringir as horas na frente da TV, das horas de propaganda, do consumo de porcarias e da exposição da criança a produtos que não foram feitos pra ela. E, finalmente, sou a favor de que cada pai e cada mãe possa oferecer ao filho bons momentos que marcarão toda uma vida. Momentos que eu, graças aos meus pais, pude ter e que espero minhas filhas também estão tendo.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Bilinguismo na Alemanha

A primeira vez que falei em uma língua estrangeira foi durante uma viagem à Itália, quando eu tinha 12 anos. Estávamos meus pais, meus irmãos e eu em Veneza, andando à beira dos canais, quando uma turista chega perto de mim e me perguntou onde ficava a Praça de São Marcos. Para minha surpresa, eu entendi o que ela queria e soube responder (provavelmente a única coisa que eu conhecia na cidade era justamente esta praça)! Lembro até hoje da cara da minha mãe me questionando: o que ela queria com você? E da expressão de surpresa dela quando lhe contei orgulhosa que eu tinha conseguido responder!

Nunca tinha pensando, até então, que as minhas aulas de inglês na escola tinham verdadeiramente uma função prática. Porém, foi a partir deste dia que me apaixonei pelo estudo de línguas estrangeiras. Obviamente não sabia na altura que eu me casaria com um "gringo" e que anos mais tarde viveria fora do Brasil. E também não sabia, ao escolher fazer um mestrado exatamente na área do bilinguismo, que eu teria filhas bilíngues.

Mas fato é que agora estou aqui, com duas filhas (uma de 4 anos e outra de 13 meses) que falam dois idiomas.
Confesso que é uma experiência rica, mas ao mesmo tempo, cansativa. Tenho sorte, no entanto, por ter um marido que domina perfeitamente os dois idiomas. Assim, a minha comunicação com as meninas não é vista com maus olhos por ele, pois é bem mais difícil tentar falar só no idioma nativo com os filhos, quando o pai não entende patavinas do que você está falando...

Aqui em casa escolhemos o método "one parent one language", isto é: eu falo exclusivamente em português com as meninas e ele alemão. Muitas vezes temos conversas altamente malucas em que eu falo com a Sophia em português, ela quer perguntar algo pro pai, traduz o que eu acabo de dizer pro alemão, o pai responde, ela traduz para o português para mim, com uma naturalidade desconcertante, e assim seguimos conversando. Mas como tanto o pai é fluente em português quanto eu em alemão não nos importamos de conversar desta maneira. Com isso a Sophia domina muito bem as duas línguas.

Ainda que tenha à disposição livros, DVDs, CDs e joguinhos tanto em português quanto em alemão, é esta última a língua que Sophia realmente domina, afinal moramos aqui e fora o input que ela recebe de mim, todo o resto vem em alemão: escola, família (do pai), televisão, rádio, etc. Ainda não passamos pelo desafio da alfabetização, mas meu objetivo é que ela também seja alfabetizada em português. Na verdade, ela já está escrevendo algumas palavrinhas e lê todas as letrinhas, mas não tenho incentivado mais pois acredito que ela deva ser alfabetizada primeiramente em alemão. Então a parte de leitura e escrita bilíngue vai ter que ficar para um post futuro.

Nem sempre a fluência nas duas línguas foi igual. Passamos por uma fase, quando a Sophia tinha 2 anos, em que ela só me respondia em alemão. Nunca deixei de conversar com ela em português e também não fingia não entender o que ela estava me perguntando. Nesta idade, em que o ato de falar ainda estava se consolidando, não queria exercer cobranças muito grandes, pois sei que isso poderia atrasar o desenvolvimento da fala como um todo. O que fiz foi ir para o Brasil. Lá ela pode brincar e interagir em português com naturalidade e como o meio realmente não a entendia, ela se viu forçada a se comunicar em português. O contrário também já aconteceu. Voltamos de férias prolongadas do Brasil e ela não queria mais se comunicar em alemão. No entanto, umas duas semanas depois tudo voltou ao "normal".

Um conselho, aliás, que sempre dava aos pais dos meus antigos alunos (trabalhei por alguns anos em uma escola bilíngue alemão/português) era:  não desista e não misture. Não comece a falar em outra língua porque seu filho não está respondendo "corretamente". E não tenha vergonha de falar no seu idioma em público. Traduza depois para quem estiver ouvindo a conversa, se for o caso, mas continue falando normalmente com o seu filho. Com a Sophia isso agora é tão natural, que se tento falar com ela em alemão, ela não aceita. Ela me pergunta logo porque estou falando com ela "esquisito". Então, até na escola converso com ela em português.

A escolinha, por sua vez, age com naturalidade em relação à questão bilíngue. A maioria dos casamentos em Hamburgo, atualmente, é de casamentos multi-nacionais e 60% das crianças em idade escolar, em grandes centros, têm duas ou mais línguas maternas!
No entanto, nem sempre é fácil a aceitação dos alemães. Percebi que a aceitação depende muito do nível educacional da pessoa. Pessoas instruídas aplaudem os esforços bilíngues dos estrangeiros. Já me aconteceu, porém, de estar andando na rua (e falando com uma amiga portuguesa) e um senhor idoso gritar em nossa direção: vocês estão na Alemanha, falem alemão! A questão da imigração e da integração é um assunto muito debatido por aqui, embora nem sempre abertamente. Como há muitos imigrantes há também muito preconceito e medo de que os estrangeiros tirem os empregos dos alemães. Muitas famílias, com medo de não serem aceitas, com medo do preconceito, acabam optando por abrir mão da língua materna quando as crianças entram na escola, mas o resultado tem sido, algumas vezes, catastrófico: crianças que não são capazes de se comunicar perfeitamente em nenhum idioma - o chamado "seminlingualism". 

Na minha família a questão do bilinguismo é bem aceita. Meus pais morrem de orgulho de verem a netinha falando tão bonitinho um outro idioma e meus sogros entendem que é importante, ainda que de vez em quando eu ouça algum comentário do tipo: a Sophia não está pronunciando bem os "Rs", será que ela não está sobrecarregada tendo que aprender duas línguas simultaneamente? Pra minha sorte nunca passou disso e eu sempre deixei bem claro que eu não admitiria intromissões neste quesito da educação das minhas filhas. Sempre frisei muito bem que faço questão que elas aprendam a minha língua da melhor maneira possível e que estou certa de que estou lhe dando o melhor presente para o seu futuro: o bilinguismo. 

Cansei de me deparar com pessoas que poderiam ter sido bilíngues e que não eram, por motivos diversos, e que estavam tentando recuperar o tempo perdido aprendendo português na universidade, ou através de aulas particulares. O comentário mais frequente era: ah que pena. Ai que desperdício... E é isso mesmo. Pra que desperdiçar esta oportunidade única?

Voltando ao começo do meu post: eu tive esta sensação de prazer em perceber que entendia dois idiomas com 12 anos e não era bilíngue. Minha filha com apenas 4 já vem lidando com esta questão desde que nasceu. No começo ela não sabia o que eram línguas estrangeiras, para ela existiam "o jeito da mamãe falar e o jeito do papai". Durante muito tempo ela generalizou e achava que mulheres falavam português e homens alemão. Sempre. Sem exceções. Nesta fase o meu pai suou um pouco pois Sophia se recusava a falar com ele em português :-) Agora, ela já sabe que pessoas falam línguas diferentes, já estuda inglês na escolinha e fala com todo o orgulho do mundo que sabe se comunicar em dois idiomas. Então acho que estamos no caminho certo. Helena fala pouco, mas o que fala já sai em duas línguas também.

Torço para que algum dia minhas filhas também possam passar este presente tão rico adiante...

Este post faz parte de uma blogagem coletiva do grupo Mães Internacionais. Se quiser saber mais sobre o bilinguismo em outros países é só clicar!

domingo, 7 de agosto de 2011

Amamentar é...

  • alimentar,
  • dar e receber carinho,
  • confortar,
  • consolar,
  • estabelecer um vínculo profundo,
  • sentir dor,
  • sentir sono,
  • ficar em dúvida se o neném mamou bem ou não,
  • se assustar com o tamanho do peito,
  • se envergonhar em ter que tirar o peito em público,
  • se emocionar com aquele rostinho lindo tão perto de você,
  • sentir o leite vindo só de pensar que o neném pode estar com fome,
  • ver a blusa manchada porque o leite vazou,
  • ver sangue no cocô do neném e chegar a conclusão que o bico do seu seio está mais rachado do que você pensava,
  • ver o seu neném crescendo e saber que isso só é possível graças ao seu leite,
  • ouvir palpite furado de muita gente,
  • receber conselhos realmente importantíssimos,
  • sentir muita sede,
  • perder peso rapidinho,
  • ter muita fome,
  • ter muito orgulho de si mesma,
  • ficar fascinada com a natureza humana,
  • exercer o papel de mãe em toda a sua plenitude,
  • amar Sophia e Helena!
E é muito mais e único para cada mãe.

Esta semana foi a Semana Mundial do Aleitamento Materno. O Grupo Vínculo está convidando as mamães blogueiras que apoiem a amamentação a tentar definir o que significa este momento tão especial.



quinta-feira, 7 de abril de 2011

Maternidade Real


A Carol Passuelo convidou em seu blog para que as mães blogueiras falassem sobre a experiência única de ser mãe, e como a realidade é diferente da teoria. Quando li este convite não pude deixar de começar a pensar no que significava pra mim a maternidade real. E o textinho abaixo é uma tentativa de por em palavras os pensamentos que surgiram na minha cabeça :-)

Ser mãe começa muito antes de um bebê nascer. Ser mãe começa com ser filha.
Pois ser filha significa observar todos os passos de sua mãe. Cada gesto, cada sorriso, cada bronca, cada decisão - tudo isto contribui enormemente para construir a nossa visão do que é ser mãe e, de quebra, o que é ser uma boa mãe. Afinal, uma boa mãe é o que todas queremos ser, a melhor mãe do mundo, a melhor mãe que podemos ser.

E ah! Como isto é difícil. Pois ser mãe significa também termos que equilibrar o ideal com o praticável. O sonho com a realidade. Significa entrar em acordo com o pai da criança, com a família, com a escolinha, com a própria criança e com o mundo em que vivemos, tudo isto para educarmos os nossos filhos da melhor maneira possível.

E este é o maior desafio. Afinal de contas o que é o melhor para uma mãe, é apenas razoável para uma outra. Parece que cada mãe tem algum assunto relacionado à educação do seu filho, que considera primordial.

Vejo minha irmã que se informa sobre cada ingrediente de qualquer alimento que entra na boca do seu filho, pois alimentação pra ela é assunto sério; vejo uma grande amiga que leva sua filha semanalmente ao médico, pois ela pesquisa sempre todos os sintomas que sua filha apresenta e teme que possa ser algo mais grave; vejo outra amiga/irmã que estimula o lado criativo e artístico de sua filha; vejo minha cunhada que considera disciplina uma qualidade fundamental para seu filho; vejo a mim mesma fazendo questão que minhas filhas falem perfeitamente o português e não somente alemão e, acima de tudo, vejo todas nós tentando equilibrar na balança todos estes ideais.

Só que a educação ideal insiste em fugir de mim...
Preferia que minha filha mais velha não assistisse televisão. Preferia que ela sempre almoçasse, jantasse, lanchasse tudo aquilo que eu coloco em seu prato sem reclamar. Gostaria que ela bebesse mais água (ela não gosta de líquidos, aparentemente... só toma bem o leite no café da manhã, mas nem adianta oferecer leite durante o resto do dia!). Ficaria feliz da vida se ela gostasse de escovar os dentes e de lavar o cabelo com o mesmo entusiasmo com que ela brinca com suas bonecas. Seria maravilhoso se ela não sentisse uma pitadinha de ciúmes da irmã.
Também adoraria que a Helena, mesmo com suas apenas 7 semanas de vida, dormisse a noite toda. Ou que pegasse a chupeta. Ou que não fizesse um monte de cocô justamente quando a fralda já está meio cheia de xixi, vazando assim cocô pelas costas acima. Ou que ela amasse ficar no colo do pai enquanto eu tomo banho sossegada.

Mas fato é que Sophia assiste sim seus desenhos à noite, enquanto eu preparo a janta e assim não fico com uma filha emburrada do meu lado que depois se recusa terminantemente a comer. Ela já dormiu sem escovar os dentes. O cabelo dela eu só lavo quando EU estou de bom humor, para encar numa boa os protestos. Já a Helena dorme ao meu lado na cama compartilhada para que durma o máximo possível e, à noite, se não fez cocô, nem troco a fralda para não acordá-la. 

Ou seja, decidi que não seria xiita.
Eu cresci assistindo Xuxa, Balão Mágico, Angélica e outras figuras do gênero, mas ainda assim me tornei uma pessoa legal (juro!), então acho que não preciso exagerar a dose e não deixar a minha filha assistir tv em momento algum (como é meio que "ditado" pela sociedade alemã).
Procuro oferecer a melhor alimentação possível aqui em casa. Compro frutas e legumes orgânicos na feira e cozinho com frequência, pois não gosto muito de comida pronta, mas não deixo de comprar sacos de legumes congelados para me facilitar a vida (dizem que legumes congelados são até mais frescos que os outros...). Evito dar açúcar para minha filha, mas não acho que ele seja um veneno.
Tento seguir radicalmente a regra de um pai/uma língua, para que o bilinguismo seja uma coisa natural, mas de vez em quando não tem jeito e saem algumas palavrinhas em alemão.
Me esforço para não ceder às birras da minha filha, mas neste exato momento ela está lá dormindo na minha cama, pois não quis dormir na sua e assim eu vou vivendo.

Não esqueço nunca dos meus objetivos, mas tento equilibrá-los com o bom senso e a comodidade (sim, a comodidade, afinal ninguém tem tempo sobrando por aí). Tudo isto temperado com a prioridade que parece ter sido a estrela-guia da educação que recebi da minha mãe - e que também é parte importantíssima da educação que dou para minhas duas filhas: fazer com que elas tenham a certeza absoluta de que ELAS e a felicidade DELAS são a prioridade na minha vida.
E este é o único ideal que eu faço questão que seja também realidade.