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domingo, 6 de novembro de 2011

Vizinha exibicionista

Então que ando meio com receio de sair na minha sacada.
A Helena adora ir lá pra fora, na sacada, para ficar olhando as árvores, as flores, os esquilos que correm no jardim, ou simplesmente ficar por ali, tomando um arzinho fresco. Mas, eis que descobrimos (eca!) que minha vizinha gosta de ficar pelada.
Tá, ela tem todo o direito de ficar como ela quiser na casa dela. Mas pôxa, tem que ficar como veio ao mundo bem ali? Num lugar tão exposto? Ela tem um jardim de inverno (onde parece passar - bem "arejada" por assim dizer - a maior parte do tempo), no térreo da casa dela, com vista para o jardim, mas fica bem na mira da minha sacada. Fica aquela coisa meio constrangedora: não sei se entro correndo, se finjo que não vejo, se dou um tchauzinho e cumprimento... O que fazer numa hora dessas?
E estes dias ela ainda resolveu fazer ioga assim. Ou estava treinando poses para filme pornô, sei lá. Só sei que era bunda pra cá, bunda prá lá, a Helena querendo olhar o esquilo lá no jardim dela, eu querendo puxá-la pro outro lado, ela se jogando pro lado da vizinha... ai, ai, ai.

Os alemães têm uma relação toda natural com o corpo, isto é fato. Para ir à sauna, por exemplo, você tem que ficar totalmente pelado. Não rola traje de banho, no máximo uma toalhinha. Dizem que não é muito higiênico usar traje de banho na sauna (hello??? e porque não??), então é proibido e pronto. E as saunas são mistas!
Na primeira vez que fui a uma quis morrer umas duas vezes. Imagina você lá, a própria Eva, mas não no paraíso, e sim cercada de velhinhos, jovenzinhos, gente de todas as idades, na verdade. Só que aí, aparecem amigos do seu sogro e resolvem bater papo com você bem ali: ah, você que é a Karen, a nora do Dr. Fulano?? Que legal! E está gostando da Alemanha? Viram-se para o seu marido:  E como está seu pai, Felix? Me conta dos seus estudos e blá, blá, blá, blá, blá, blá. Eu achei que meu rosto nunca mais voltaria à sua cor normal. Que eu ficaria roxa para todo o sempre. Aff.

Caramba, eu sou brasileira, não estou acostumada com isso. Pra mim não é normal, ué. E como fingir naturalidade numa situação assim? Aquele monte de coisa balançando e você finge que é sei lá... uma orquídea? Eu costumo dar um sorrisinho pra florista, mas e na sauna? Você faz o quê?

Pelo menos, não costumo ver aquelas pessoas - as da sauna - depois. Mas e a vizinha?

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Tenho algo embaraçoso para contar...

Então, vamos por partes.
Primeiramente queria falar sobre o sistema educacional alemão :-) Pelo menos um pouquinho.

Aqui na Alemanha você não pode simplesmente colocar seu filho no maternal (até 3 anos). Vagas no maternal só são garantidas a mães que trabalham período integral ou que estudem (faculdade, ou curso intensivo de alemão, ou as que recebem ajuda do governo para sobreviver por estarem desempregadas). Se você não se encaixa em nenhuma das categorias não tem direito à escolinha e pronto. Claro que sempre dá para tentar uma escolinha particular, mas obviamente o preço é muito, muito mais salgado. Não que seja baratinho pagar a escolinha, para quem tem uma renda melhorzinha fica caro ainda assim (o preço varia de acordo com a renda do casal e do tempo em que a criança permanecerá na escola. Se alguém se interessar tem uma tabela de preços (com detalhes em alemão) aqui,).

Curiosidade: mas pelo menos o preço baixou. Aliás, acreditam que aqui em Hamburgo um outro partido foi eleito por ter (entre outras coisas, claro) prometido abaixar o preço da escolinha? Eu votei neles :-) E realmente o preço baixou! Não sabia que promessas de campanha são realizáveis! Achei que fosse algo tipo papai noel, coelhinho da Páscoa e Saci Pererê, sabe? Que só existem no imaginário popular..

Uma outra (grande) dificuldade é encontrar uma escolinha. Não basta simplesmente chegar em uma e dizer quero matricular meu filho. Como as vagas são limitadas você tem que concorrer a um lugar. E não tem critérios para aprovação! Tenho uma amiga que mandou 70 currículos até conseguir um lugar para o filho dela! Nós já tivemos mais sorte (ou persistência): eu selecionei umas 5 escolinhas que me interessavam (por recomendação, proximidade ou dicas na internet) e depois de visitar as cinco, fiquei torrando a paciência de 3 (ligando muuuuitas vezes pra lá) para conseguir uma vaga. Consegui vaga nas 3 e depois tive a difícil tarefa de ter que me decidir.

Enfim, depois que você provar que tem um emprego fixo (tem que levar o contrato de trabalho para a secretaria da criança, juntamente com muitos outros documentos como holerite, certidão de nascimento etc, para que seja calculado quanto você vai pagar) e que tem uma vaga na escolinha, você pode ir até a tal da secretaria da criança e solicitar um vale-escolinha. Trata-se de um papel em que está escrito que você levou a documentação necessária, e que a secretaria vai pagar pela escola do seu filho, e qual é o percentual restante a ser pago pelo responsável do aluno. Este vale os pais recebem pelo correio.

E é aqui que começa de fato o assunto deste post. Eu recebi um vale desses (que deve ser levado imediatamente à escolinha) comunicando o feliz fato de que o preço tinha abaixado! Nem acreditei na minha sorte. Pra ser sincera a minha primeira reação foi achar que a secretaria tinha feito algum erro e que eu já deveria deixar de lado o dinheiro economizado momentaneamente para ressarcir os cofres do Estado depois :-). Mas, conversando com outras mães, percebi que não havia erro nenhum e que eu poderia levar tranquilamente meu vale à escola. Porém, nesta altura, a escolinha da Sophia estava em férias e eu guardei o papel para levar depois.

Pois é. Eu "guardei" foi só uma palavra bonita para dizer eu deixei o papel em algum lugar qualquer. Quando a escolinha finalmente reabriu comecei a procurar o bendito do vale. Procurei, procurei, procurei e nada. Minha mãe me ajudou a procurar, procurei na caixa onde deixamos o papel velho (e que deve ser colocado num contâiner especial para a recolha do lixo) e novamente nada. Coloquei a culpa no marido, dizendo que ele deveria ter perdido o papel, ele me ajudou a procurar também, mas nope. Não encontramos o vale.
No auge do meu desespero comecei a procurar meu óculos de sol da Versace e meu ipod, pois sempre que "guardo" estes itens (já que foram caros costumo querer "guardar melhor" e assim nunca os encontro depois), e procuro por eles depois, acabo encontrando um monte de outras coisas desaparecidas (em tempo achei uma calça que andava procurando há séculos!), mas novamente não fui bem sucedida...

Aí me restava a humilhante opção de ir até a secretaria da criança e a) admitir que sou desorganizada dizer que perdi o papel; b) por a culpa na minha filha dizer que minha filha pintou/rasgou/sumiu com o papel e c) chorar em vez de dizer qualquer coisa até o povo da secretaria me dar um novo vale para eu parar de encher o saco.
Nenhuma das alternativas estava me agradando muito, eu confesso. Até que minha mãe veio com uma sugestão maravilhosa: põe a culpa em mim! Brilhante, não? Melhor que assumir minha desorganizaçao. Melhor que por a culpa numa criança (e em mim por tabela), o que quase sempre parece uma desculpa esfarrapada..  E não seria mesmo?

E foi assim que cheguei na tal da secretaria com a seguinte frase nos lábios: tenho algo embaraçoso para contar... Aliás, fica a dica, esta é uma frase ótima quando você quiser que funcionários públicos te escutem. Acho que até o porteiro parou para ouvir o que eu queria dizer!
E continuei: minha mãe não sabe alemão (desculpa, mãe!) e achou que o papel do vale não era importante e fez dele a sua lista de compras. O carinha da senha só deu risada e falou: heheheh, minha mãe também não sabe alemão! Ele me deu a senha e eu já fui toda feliz e contente sentar e esperar as 57 pessoas que estavam na minha frente. Nisso, dou mais uma olhada pro meu papel, olho para o número que estava sendo chamado e... era o meu! Olho confusa para o carinha da senha e ele me diz: vai, vai, é tua vez. E sorri novamente!

Nem acreditei na minha sorte e lá fui eu falar com uma velhinha com cara de rabujenta. Mas como tinha dado certo, comecei:
Tenho algo embaraçoso para contar....
E ela, a velhinha não-rabujenta, sorri e me diz:
Acontece. Não se preocupe. Qual é o nome completo da sua filha?

E me deu um novo vale assim, na boa!
Rá, acho que só vou começar diálogos desta forma daqui pra frente. Obrigada mãe pelas costas largas!